segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Olhar para frente

Eu olho para trás e você ainda é aquele ali, parado na esquina, sorrindo meio desengonçado, esperando que eu abra o portão. Esperando que eu te abrace e depois te beije, e que te diga que sua camisa não combina com sua calça. Eu olho para trás e você ainda é o meninão que ri das minhas piadas, que passa a tarde inteira jogando cartas com minha avó enquanto eu faço as unhas, que sabe que odeio que mexam no meu pé (e que sempre o faz para me ver ficar brava). Eu olho para trás e você ainda é o homem que me faz mais mulher, que me arrepia o pêlo, que balbucia meu nome com fervor, que me segura pela cintura e aperta forte meu corpo contra o seu. Eu olho para trás e você ainda é o amigo que me ouve, o único que me conhece por inteiro, de alma, que conhece cada centímetro de mim. Conhece todas minhas manias, todos os meus sorrisos, todos os meus olhares. Eu olho para trás e você ainda é o confidente que sabe meus segredos, meus medos, meus crimes, meus sonhos.

Mas quando eu olho para trás, você está, atrás. E cada vez mais atrás, e diminuindo, e indo embora. E se tornando mais uma lembrança do que uma presença, mais uma foto no mural do que uma ida à praia, mais uma página do diário (algumas páginas) do que um filme no fim da tarde. Uma paixão que veio, fez tormenta, tirou o sono, fez o teto cair e o chão fugir. Devastador. Mas que resolveu partir, assim, sem mais nem menos, como quem não quer nada. Foi-se com a chegada do inverno. Eu olho para trás e vejo um amor de verão, um sonho bom, uma lembrança terna.

E de repente, bum! É hora de olhar para frente, e ver que a vida está acontecendo, e que há alguém pra se olhar. E eu olho para frente e despeço-me de outra vida, sorrindo com alegria e abrindo meu coração com emoção para a brisa de primavera que traz outra vida, outras emoções, outros contos, que traz mais prosa e poesia, e que traz meu amor.


Kathlen Heloise Pfiffer

domingo, 9 de novembro de 2008

Quando as palavras são feitas de puro silêncio, quando o som lá fora se torna inaudível. Quando os outros não importam, a luz apaga, a cortina fecha, o perfume exala. Quando o toque do celular não chama atenção, o vento não traz mais o frio, a chuva não afasta mais pra baixo do telhado. Quando a perna treme, o ar falta, o calor emana, o corpo pede e a boca avança. Aí... Aí a gente beija.
Kathlen Heloise Pfiffer

domingo, 26 de outubro de 2008

A procura de ser encontrado.

Passamos a vida inteira procurando. Buscando, tentando encontrar. Procurando uma casa, um carro, uma praia, um bom restaurante. Um filme, uma música perfeita, um livro, um perfume, um mantra, um cachorro, uma bebida. Tem gente que passa a vida procurando insetos, leões, cachoeiras, tesouros, amigos. Amores. Agora, o que realmente define sua busca, é o momento em que se encontra o que se procurava. Porque muitas vezes pensamos ter realmente encontrado a casa certa, e uma semana depois, descobrimos que ela é um antro de cupins e que tem goteiras no telhado. Descobrimos que o carro está com o motor trocado, e que o livro não tinha bem o final esperado. A cachoeira tinha suas águas sujas e o tesouro era de latão.

E eu procurei muito tempo. Procurei em bares, no cinema, em boates, na praia, no parque, procurei na rua. Procurei um menino, um homem, um amigo, um amante, um inimigo, uma paixão. Procurei e admito que vez em quando achava um aqui ou acolá, meio capenga, meio mais ou menos. Meio perfil. Servia pra meio período. Alguns eram meio charmosos, meio bonitos, ou muito bonitos e nada charmosos. Meio inteligentes e meio fortes. Ou muito fortes e nada inteligentes.

Mas nenhum deles era realmente inteiro. Nenhum deles fazia meu olhar congelar em sua direção, meu peito acelerar ao atender ao telefone, minha espinha se arrepiar com um abraço. Nenhum deles me deixava à vontade pra andar descalça, de cabeça baixa em silêncio. E nenhum deles conseguia agüentar meus zilhões de palavras no silêncio das oito da manhã depois de uma noite sem sono. Nenhum deles mentia ao dizer que eu estava bonita depois de pegar chuva e estar sem maquiagem. Nenhum deles me irritava e me acalmava com um único sorriso. E quando eu dizia que ia embora, eles me deixavam ir, e quando eu os mandava ir embora, eles nunca ficavam. E por isso que eu continuava procurar. Até que eu cansei.

Cansei porque não havia sentido nenhum em continuar aturando conversas bobas sobre musculação, sobre futebol, sobre o emprego entediante, sobre todas as ex-namoradas, ou sobre como seus pais tinham dinheiro. Não havia sentido continuar procurando alguém pra ir ao cinema, mas que minutos depois me deixaria ir sozinha para casa. Eu não procurava uma casa, não era um carro, não era um perfume, era um alguém. Procurava um olhar, um cheiro, um algo mais que me prendesse e não me soltasse pra que eu pudesse ter a certeza absoluta de que realmente tinha encontrado. Mas não achei.

Mas sorte a minha que eu fui achada. E meu olhar congelou em sua direção, minha espinha se arrepiou com seu abraço e meu peito acelerou com sua voz rouca em meu ouvido. E que baita sorte, além disso, ele era bonito e charmoso. Inteligente e forte, por inteiro, de alma, de essência.

E eu me convenci que passamos a vida inteira procurando sim. Mas a maioria das vezes, o que queremos está bem debaixo do nosso nariz. E quando deixamos de procurar, somos encontrados. Tem um ditado que diz isso, eu sei. Algo de borboletas e jardins. Mas precisava viver pra acreditar. Eu preciso continuar vivendo tudo isso. Eu preciso sentir que ele ainda sente, eu preciso que o seu coração dê um choque no meu, eu preciso saber que seu peito ainda aperta um pouco quando eu vou embora e se espalha como borboletas nas veias quando eu chego. Eu preciso ser encontrada todos os dias, pra me convencer que não preciso mais procurar.

Kathlen Heloise Pfiffer

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Hoje e amanhã.

Então eu chego em casa e tiro meus sapatos salto alto cor de carmin. A maquiagem já não aparece, o batom já foi tirado (e tirado com afinco). O cabelo está inosado, desarrumado. Normal. Dispo meu vestido que há minutos atras era tirado com os olhos. E então me vem logo na cabeça o dia seguinte. Como será o dia seguinte?
Hoje fiquei nua em sua frente. Nua de alma, de pensamento, de espiríto. E por tanto tempo evitei que isso acontecesse, sabe como é, é melhor se preservar, não ir correndo, para no final ainda restar fôlego. Mas hoje fui com sede ao pote de ouro, abri minha mente e te mostrei os caminhos. Agora é tarde.
Agora tu já sabes que para me desarmar é só soprar devagarzinho na nuca. Já sabes que basta me olhar bem nos olhos para que meu coração dispare e eu te retribua um olhar brilhante, sincero, sabes também que basta não me olhar nos olhos para eu ficar de cara feia e amarrada. De agora em diante aprendeste que quando o assunto sou eu não existem meios nem metades, muito menos só um pouco. Aprendeste que para me ver feliz, basta deixar que eu fale de boca cheia , ou então me deixe cantar, rir alto, e tropeçar para rir de mim mesma (mas não esqueça de rir junto comigo). Agora já sabes onde encontrar o riso da vida, e onde colocar a seriedade dela, ou então vice e versa.
Entendeste que gosto de atenção, que gosto de carinho, de elogios e já me dás isso em toneladas (se fosse possível medir) e vais me deixando mal acostumada. Aprendeste a me deixar mal acostumada. E depois da noite que passou, aprendeste a fazer muita falta.
E por isso eu tenho vontade de segurar teu rosto e te dizer pra não ir embora, pra jamais me perder, e pra me fazer feliz sempre. Não quero que vás embora. Não quero que sejas algo ruim na minha vida. Você é motivo de riso, razão pra eu me arrumar e sair num dia chuvoso, só por saber que vou poder andar de mãos dadas contigo. Não quero falar mal de ti para minhas amigas. Quero dizer que o máximo de irritação que me causas é discordar sempre de mim e fazer surgir debates sobre as causas mais infundáveis existentes.
Não quero te largar, não quero que me largues. Não quero ter motivos pra desligar o telefone na tua cara e nem pra sair da sala e te deixar falando sozinho. E eu não tenho medo que isso aconteça. Eu nunca tenho. Mas eu queria que dessa vez desse certo. Eu queria mesmo. Eu queria que dessa vez eu não tivesse que te ver com outra, que dessa vez você cuidasse mesmo de mim como prometeu hoje a noite que faria. Hoje a noite.
E então eu tomo um banho, visto meu pijama, deito e durmo. E o dia seguinte, como será?

kety

domingo, 5 de outubro de 2008

Porque existem certos momentos na minha vida em que tudo muda. São dias em que eu vou dormir sorrindo e acordo cantando. Em que eu passo no espelho e arrumo o cabelo, eu saio na rua e escuto os passarinhos. Eu olho na janela e vejo cores radiantes lá fora. É nesses dias que eu consigo lembrar que dentro de mim ainda existe uma mulher que consegue ser sedutora, que consegue ser atraente, que consegue chamar a atenção de um homem. Mas também consigo lembrar da menininha que vive em mim, que precisa de proteção, de carinho, de atenção. São dias em que não importa se faz chuva, se faz sol, se está frio lá fora. Porque a verdade é que o constante calor que me envolve torna todos os céus azuis, todas as tardes quentes e todos os dias com uma brisa morna e suave.
São dias que me lembram a canção do mundo, o mistério da vida.
E eu vivo intensamente esses dias, e divido esses dias. Talvez seus dias também estão um pouco mais coloridos, talvez a música agora também é mais suave. Mas disso eu não sei. E também não sei se quero saber. Gosto do desconhecido, gosto de andar na corda bamba, gosto do extremo. Acontece que hoje, aqui, o que conta mesmo é cada instante, e cada suspiro de vida. O resto lá fora não importa mais. Agora são só dois. Um estranho par. Um par de amigos, de inimigos, de amantes, de apaixonados.
Por enquanto, deixa estar. Vou aproveitando enquanto aquele que veio de um lugar de apenas 2% está por aqui. Minha porta está aberta, e não me importo mais de o esperar no portão debaixo de chuva. Porque eu andei milhas e milhas, mas parece que meu único destino é a sua porta.
E se o amanhã me reservar o melhor, eu vou continuar aqui escrevendo sobre os dias em que ando em nuvens. Caso contrario, também estarei aqui, escrevendo sobre todos os dias em que consegui abrir as janelas do meu corpo e sorrir com candura para o horizonte. E então eu vou admirar o que fiz no passado, e me sentirei feliz.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

A verdade é que o mundo é uma grande peça de teatro, onde cada um escolhe seu papel. É assim, tem pessoas que não vivem, simplesmente atuam por aqui. Entram no camarim e vestem sua fantasia, escondendo-se através de plumas, paetês, máscaras. E então esses tipos sobem no palco e ali permanecem, com um lindo sorriso estampado no rosto, atuando, fazendo suas melhores poses, suas caras e bocas sensuais ou então posando de santinhos. Usam um tipo de maquiagem definitiva, alguns não tiram nem para dormir. Dentre esses, ainda há aqueles que inventam sua própria máscara, mas pior ainda são os que só copiam. Sequer criatividade de ser seu próprio eu inventado alguns têm. Uma lástima.
Mas como no teatro, existe também a platéia. Que vibra, que ri, que chora, se emociona. Não precisa contracenar, vestir sedas e rendas para ser feliz. Existem ali pessoas de verdade, que não fazem cena, não usam maquiagem, não ficam o tempo inteiro buscando seu melhor ângulo. Existem ali humanos. Que erram, acertam, aprendem. Vivem. Sem medo de ser o que realmente são, sem medo do cabelo bagunçado, dos quilinhos a mais por causa da pizza de sexta feira a noite.. Sem medo do mal hálito matutino, sem a vergonha de admitir o medo de altura.
Enquanto uns se enfeitam por fora, atribuindo para si uma capa fútil, fina, sem essência alguma, apenas com intuito de criar uma outra vida para si, existem aqueles que não passam despercebidos. Aqueles que não se importam com o que outros podem vir a pensar. E são estes que para sempre serão lembrados, pois serão esses que farão a diferença. Os outros, os outros só se esforçam em vão para imitar a platéia. Para servir de diversão.
Pode ser que no palco essas máscaras nunca caiam, pode ser que para sempre os 'artistas' serão perfeitos, felizes, sorridentes. Mas ainda acredito que uma hora a luz vai acender, e então o imenso vazio presentes nesses pobres desalmados virá a tona com a claridade. Eu? Eu estarei na platéia, indo para casa comer uma pizza.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Um novo livro, um novo armário, um novo telefone. Uma agenda nova, um cachorro novo, um lindo par de sapatos novos. Uma marca de arroz nova, um guardanapo diferente. Lençóis laranja, verdes, roxos. Nada de branco. Uma sala nova: menos sofás, mais almofadas. Uma viagem, não para a praia, para o campo. Ou não para o campo e sim para a a praia. Hum, que tal um vestido novo pra combinar com os sapatos? É uma boa opção. E então uma nova festa, uma nova dieta, um novo amigo. Um novo namorado, um novo marido. Um novo rumo, uma nova direção, uma nova vida. A pergunta é, você está pronto para seguir em frente, ou ainda se prende aos fantasmas do passado?