domingo, 26 de outubro de 2008

A procura de ser encontrado.

Passamos a vida inteira procurando. Buscando, tentando encontrar. Procurando uma casa, um carro, uma praia, um bom restaurante. Um filme, uma música perfeita, um livro, um perfume, um mantra, um cachorro, uma bebida. Tem gente que passa a vida procurando insetos, leões, cachoeiras, tesouros, amigos. Amores. Agora, o que realmente define sua busca, é o momento em que se encontra o que se procurava. Porque muitas vezes pensamos ter realmente encontrado a casa certa, e uma semana depois, descobrimos que ela é um antro de cupins e que tem goteiras no telhado. Descobrimos que o carro está com o motor trocado, e que o livro não tinha bem o final esperado. A cachoeira tinha suas águas sujas e o tesouro era de latão.

E eu procurei muito tempo. Procurei em bares, no cinema, em boates, na praia, no parque, procurei na rua. Procurei um menino, um homem, um amigo, um amante, um inimigo, uma paixão. Procurei e admito que vez em quando achava um aqui ou acolá, meio capenga, meio mais ou menos. Meio perfil. Servia pra meio período. Alguns eram meio charmosos, meio bonitos, ou muito bonitos e nada charmosos. Meio inteligentes e meio fortes. Ou muito fortes e nada inteligentes.

Mas nenhum deles era realmente inteiro. Nenhum deles fazia meu olhar congelar em sua direção, meu peito acelerar ao atender ao telefone, minha espinha se arrepiar com um abraço. Nenhum deles me deixava à vontade pra andar descalça, de cabeça baixa em silêncio. E nenhum deles conseguia agüentar meus zilhões de palavras no silêncio das oito da manhã depois de uma noite sem sono. Nenhum deles mentia ao dizer que eu estava bonita depois de pegar chuva e estar sem maquiagem. Nenhum deles me irritava e me acalmava com um único sorriso. E quando eu dizia que ia embora, eles me deixavam ir, e quando eu os mandava ir embora, eles nunca ficavam. E por isso que eu continuava procurar. Até que eu cansei.

Cansei porque não havia sentido nenhum em continuar aturando conversas bobas sobre musculação, sobre futebol, sobre o emprego entediante, sobre todas as ex-namoradas, ou sobre como seus pais tinham dinheiro. Não havia sentido continuar procurando alguém pra ir ao cinema, mas que minutos depois me deixaria ir sozinha para casa. Eu não procurava uma casa, não era um carro, não era um perfume, era um alguém. Procurava um olhar, um cheiro, um algo mais que me prendesse e não me soltasse pra que eu pudesse ter a certeza absoluta de que realmente tinha encontrado. Mas não achei.

Mas sorte a minha que eu fui achada. E meu olhar congelou em sua direção, minha espinha se arrepiou com seu abraço e meu peito acelerou com sua voz rouca em meu ouvido. E que baita sorte, além disso, ele era bonito e charmoso. Inteligente e forte, por inteiro, de alma, de essência.

E eu me convenci que passamos a vida inteira procurando sim. Mas a maioria das vezes, o que queremos está bem debaixo do nosso nariz. E quando deixamos de procurar, somos encontrados. Tem um ditado que diz isso, eu sei. Algo de borboletas e jardins. Mas precisava viver pra acreditar. Eu preciso continuar vivendo tudo isso. Eu preciso sentir que ele ainda sente, eu preciso que o seu coração dê um choque no meu, eu preciso saber que seu peito ainda aperta um pouco quando eu vou embora e se espalha como borboletas nas veias quando eu chego. Eu preciso ser encontrada todos os dias, pra me convencer que não preciso mais procurar.

Kathlen Heloise Pfiffer

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Hoje e amanhã.

Então eu chego em casa e tiro meus sapatos salto alto cor de carmin. A maquiagem já não aparece, o batom já foi tirado (e tirado com afinco). O cabelo está inosado, desarrumado. Normal. Dispo meu vestido que há minutos atras era tirado com os olhos. E então me vem logo na cabeça o dia seguinte. Como será o dia seguinte?
Hoje fiquei nua em sua frente. Nua de alma, de pensamento, de espiríto. E por tanto tempo evitei que isso acontecesse, sabe como é, é melhor se preservar, não ir correndo, para no final ainda restar fôlego. Mas hoje fui com sede ao pote de ouro, abri minha mente e te mostrei os caminhos. Agora é tarde.
Agora tu já sabes que para me desarmar é só soprar devagarzinho na nuca. Já sabes que basta me olhar bem nos olhos para que meu coração dispare e eu te retribua um olhar brilhante, sincero, sabes também que basta não me olhar nos olhos para eu ficar de cara feia e amarrada. De agora em diante aprendeste que quando o assunto sou eu não existem meios nem metades, muito menos só um pouco. Aprendeste que para me ver feliz, basta deixar que eu fale de boca cheia , ou então me deixe cantar, rir alto, e tropeçar para rir de mim mesma (mas não esqueça de rir junto comigo). Agora já sabes onde encontrar o riso da vida, e onde colocar a seriedade dela, ou então vice e versa.
Entendeste que gosto de atenção, que gosto de carinho, de elogios e já me dás isso em toneladas (se fosse possível medir) e vais me deixando mal acostumada. Aprendeste a me deixar mal acostumada. E depois da noite que passou, aprendeste a fazer muita falta.
E por isso eu tenho vontade de segurar teu rosto e te dizer pra não ir embora, pra jamais me perder, e pra me fazer feliz sempre. Não quero que vás embora. Não quero que sejas algo ruim na minha vida. Você é motivo de riso, razão pra eu me arrumar e sair num dia chuvoso, só por saber que vou poder andar de mãos dadas contigo. Não quero falar mal de ti para minhas amigas. Quero dizer que o máximo de irritação que me causas é discordar sempre de mim e fazer surgir debates sobre as causas mais infundáveis existentes.
Não quero te largar, não quero que me largues. Não quero ter motivos pra desligar o telefone na tua cara e nem pra sair da sala e te deixar falando sozinho. E eu não tenho medo que isso aconteça. Eu nunca tenho. Mas eu queria que dessa vez desse certo. Eu queria mesmo. Eu queria que dessa vez eu não tivesse que te ver com outra, que dessa vez você cuidasse mesmo de mim como prometeu hoje a noite que faria. Hoje a noite.
E então eu tomo um banho, visto meu pijama, deito e durmo. E o dia seguinte, como será?

kety

domingo, 5 de outubro de 2008

Porque existem certos momentos na minha vida em que tudo muda. São dias em que eu vou dormir sorrindo e acordo cantando. Em que eu passo no espelho e arrumo o cabelo, eu saio na rua e escuto os passarinhos. Eu olho na janela e vejo cores radiantes lá fora. É nesses dias que eu consigo lembrar que dentro de mim ainda existe uma mulher que consegue ser sedutora, que consegue ser atraente, que consegue chamar a atenção de um homem. Mas também consigo lembrar da menininha que vive em mim, que precisa de proteção, de carinho, de atenção. São dias em que não importa se faz chuva, se faz sol, se está frio lá fora. Porque a verdade é que o constante calor que me envolve torna todos os céus azuis, todas as tardes quentes e todos os dias com uma brisa morna e suave.
São dias que me lembram a canção do mundo, o mistério da vida.
E eu vivo intensamente esses dias, e divido esses dias. Talvez seus dias também estão um pouco mais coloridos, talvez a música agora também é mais suave. Mas disso eu não sei. E também não sei se quero saber. Gosto do desconhecido, gosto de andar na corda bamba, gosto do extremo. Acontece que hoje, aqui, o que conta mesmo é cada instante, e cada suspiro de vida. O resto lá fora não importa mais. Agora são só dois. Um estranho par. Um par de amigos, de inimigos, de amantes, de apaixonados.
Por enquanto, deixa estar. Vou aproveitando enquanto aquele que veio de um lugar de apenas 2% está por aqui. Minha porta está aberta, e não me importo mais de o esperar no portão debaixo de chuva. Porque eu andei milhas e milhas, mas parece que meu único destino é a sua porta.
E se o amanhã me reservar o melhor, eu vou continuar aqui escrevendo sobre os dias em que ando em nuvens. Caso contrario, também estarei aqui, escrevendo sobre todos os dias em que consegui abrir as janelas do meu corpo e sorrir com candura para o horizonte. E então eu vou admirar o que fiz no passado, e me sentirei feliz.